sábado, 25 de março de 2017

Não se pode desperdiçar comida!



Dinamarca, um país contra o desperdício de comida
Graças a ativistas, supermercados e fabricantes, nação europeia elimina 25% do desperdício





 Dinamarqueses fazem compras em um supermercado. Flemming Effersøe REMA 1000

Com as folhas verdes da cenoura se pode fazer um pesto. As dos rabanetes, quando bem lavadas e marinadas, servem para saladas. Levadas ao forno, as que rodeiam a couve-flor ficam saborosas e crocantes. Essas receitas não são novas, mas seus ingredientes costumam acabar no lixo, pelo fato de não parecerem comestíveis. Fazem parte dos 30% de toda a comida produzida no mundo – e de 25% da água usada em seu cultivo – que desperdiçamos sem pensar duas vezes.

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Nada menos que um terço dos alimentos. E isso que, segundo a ONU, até 2050 será necessário aumentar em 60% a oferta para alimentar os quase 10 bilhões de seres humanos que habitarão a Terra nessa época. Embora o desperdício alimentar seja socialmente mal visto, o que geralmente é uma das primeiras lições aprendidas em casa, os maus hábitos superam as boas intenções. Na Dinamarca, o esforço dos últimos cinco anos deu frutos: o país reduziu as perdas de alimentos em 25% graças ao impulso popular do movimento encabeçado pela plataforma Stop Spild Af Mad (“basta de desperdiçar comida”, no idioma local). Esse grupo é o motor, mas já embarcaram na ideia gigantes como Nestlé e Unilever, chefs famosos e redes de supermercados como a Rema 1000. De tanto ser martelada, em meia década essa mensagem impregnou a sociedade.

Numa loja da Rema 1000 em Copenhague, há um saco de cenouras e outro de cherovias (uma raiz semelhante à cenoura) ao lado da balança onde frutas e hortaliças são pesadas. Esses dois produtos, muito populares, são vendidos por unidade, e não em maços ou sacos. É simples e ajuda o consumidor a comprar só o que necessita. Um pouco mais adiante, junto às geladeiras de laticínios, são guardados os ovos. Ficam refrigerados a 12oC para prolongar seu uso sem problemas de toxicidade. Os sacos de pão de forma apresentam meias porções, e as de bolinhos vêm com apenas cinco. Nos freezers das carnes, bifes e peitos de frango com prazo de validade muito exíguo têm um adesivo chamativo e preço reduzido. Em nenhum lugar há ofertas do tipo “leve três e pague dois”.
“Se você for analisar, faz sentido. Para que comprar mais do que o necessário? E, no entanto, todos nós fazemos isso”
“Se você for analisar, faz sentido. Para que comprar mais do que o necessário? E, no entanto, todos nós fazemos isso”, diz Anne-Marie Jensen Kerstens, consultora alimentar da Federação de Comerciantes Varejistas (DSK, na sigla em dinamarquês). Em 2008, essa foi a primeira rede de supermercados da Dinamarca a eliminar os descontos por volume, como o 3x2, preferindo oferecer produtos unitários a preços baixos. “Não só não atrapalhou as vendas como o cliente tende a levar a quantidade exata”, comenta Jense Kerstens.

O caminho dinamarquês contra o desperdício de alimentos – todos os caminhos, na verdade – levam a Selina Juul, uma designer gráfica transformada em ativista que abalou as consciências. Nascida em Moscou em 1980, chegou à Dinamarca com 13 anos e logo percebeu um fato para ela inconcebível. “As pessoas jogavam fora os restos de comida, quando em Moscou não sabíamos o que íamos comer no dia seguinte”, lembra a criadora de Stop Spild Af Mad em um restaurante do centro perto do Ministério de Alimentação, Agricultura e Pesca. É uma de suas piscadelas típicas. Isso e sua determinação a transformaram na Dinamarquesa do Ano em 2014. De cidadã irritada com o desperdício de alimentos (um total de 700.000 toneladas por ano, das quais 260.000 correspondem ao consumidor), Juul transformou Stop Spild Af Mad na maior ONG de seu tipo no país.

“É preciso trabalhar a partir do lar. Se você visualiza o que joga fora é mais fácil consumir de forma sensata. Por exemplo, um em cada dois dinamarqueses tinha em sua geladeira em 2015 algum Objeto Congelado Não Identificado que acaba no lixo”. A ativista pede que se imagine, por outro lado, a comida desperdiçada no Natal quando se cozinha para 20 e no máximo há 10 pessoas na mesa. “Tentamos fazer com que as pessoas percebam isso. Tal como acontece com os bufês ilimitados, que estão desaparecendo”.

 Cenouras e cherovias ‘feias’ em um supermercado dinamarquês. Flemming Effersøe REMA 100

Nos restaurantes tradicionais, uma outra iniciativa teve eco. Como o apoio do departamento de Soluções Alimentares da multinacional Unilever, desde 2013 foram distribuídas cerca de 80.000 sacos de restos em cerca de 300 locais. Muito populares nos EUA, eles são chamados ali de Doggy Bag [saco para o cão, embora seja, na verdade, para o cliente]. A ONG dinamarquesa mudou seu nome para Goodie Bag [saco das coisas boas] e estimula os garçons a oferecê-las aos frequentadores para evitar constrangimentos.

Em fevereiro passado, foi aberto o Wefood, uma mercearia que vende frutas e verduras com embalagem danificada ou de aspecto “feio”, mas comestíveis. E pelo Too Good to Go se pode pedir comida que tenha sobrado, ainda saudável, para cafés, restaurantes, padarias...
“A Unilever usa 10% dos tomates do mundo inteiro, e até 2020 queremos reduzir a nossa pegada de contaminação pela metade. Que qualquer recurso natural utilizado, da verdura ao chá, provenha de uma fonte sustentável, sejam de estação ou não, e que não sejamos obrigados a transportá-lo por mais de 130 quilômetros para uma fábrica”, afirma Frank Jakobsen, chefe e especialista em tecnologia de alimentos da empresa em Copenhague. A companhia desenvolveu um aplicativo voltado para os cozinheiros que “os ajuda a reduzir o desperdício medindo o consumo de seus clientes e indicando onde se acumula mais lixo”.

Outro gigante do setor, a Nestlé, também se comprometeu publicamente a eliminar o desperdício de alimentos. “Por uma questão de responsabilidade e também porque se perde dinheiro. Nosso objetivo é reduzi-la a zero em nossas fábricas e centros de distribuição até 2020. É preciso diminuir pela metade também toda a comida que não é aproveitada, desde a granja até a mesa, até 2030”, afirma Michiel Kernkamp, diretor de mercado da Nestlé Nordic.

Empurrado por Selina Juul e pelo trabalho dos ativistas do Stop Spild af Mad, o Governo dinamarquês também se faz presente. “É um dos nossos maiores parceiros, pois empresas e políticos já viram que desperdiçar comida não é algo popular. E que transformar esse lixo todo em combustível, algo muito útil, também não é a solução. O essencial é que o consumidor seja responsável e exija o mesmo da indústria”, conclui a ativista.

Timm Vladimir, chef, mestre cozinheiro e ator
Isabel Ferrer, Copenhague
A primeira coisa que chama a atenção na escola de cozinha de Timm Vladimir, duas vezes vencedor do concurso Masterchef da Dinamarca, é a farinha. A medida justa está preparada nos pratos para seus clientes. “É melhor colocar para não desperdiçar grandes quantidades”, diz, em um ambiente organizado e muito limpo. O da farinha não é apenas para economizar. Vladimir é embaixador de Stop Spild Af Mad, a ONG empenhada em reduzir a quantidade de comida desperdiçada no país, e aborda seu trabalho educativo com a segurança do ator, sua primeira vocação. “Nos esquecemos de conservar bem os alimentos, fazer conservas caseiras, salgar ou defumar. Por preguiça, jogamos produtos em perfeito estado, por isso trabalho também com crianças. É preciso começar imediatamente”.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Vai Belô!



BH realiza hoje desfile das escolas de samba, tradição de 80 anos

  • 28/02/2017 12h50
  • Belo Horizonte
Léo Rodrigues – Correspondente da Agência Brasil

 Campeã da última edição, Canto da Alvorada não vai desfilar este ano no carnaval de Belo HorizonteJulia Lanari/Belotur/Divulgação


Os blocos de rua, que vêm assumindo o protagonismo do carnaval de Belo Horizonte desde 2009, não são as únicas atrações da folia da cidade. Durante a maior parte da década de 2000, foram as escolas de samba que exerceram papel importante para garantir que a festa mais popular do país não passasse em branco na capital mineira. Carregando uma tradição de 80 anos, as agremiações continuam como peça importante na programação oficial do carnaval da cidade e desfilam hoje (28) à noite.

Quatro escolas – Estrela do Vale, Imperavi de Ouros, Acadêmicos de Venda Nova e Cidade Jardim – vão se apresentar na Avenida Afonso Pena, nesta ordem, a partir das 20h. As três melhores na opinião do júri serão anunciadas na sexta-feira (2) e receberão prêmios de R$50 mil, R$25 mil e R$12,5 mil. Os quesitos avaliados serão bateria, samba-enredo, enredo, conjunto harmônico, alegorias e adereços, fantasias, comissão de frente e desempenho do mestre-sala e da porta-bandeira.

Detentora de 14 títulos e vencedora da edição de 2016, a Canto da Alvorada não desfilará neste ano. Segundo nota publicada página da agremiação, a decisão se deu pela “falta de reconhecimento pelo poder público e pelas condições apresentadas”. Por outro lado, está garantida a presença da Escola de Samba Cidade Jardim, que soma 16 títulos e é a maior campeã. Criada em 1961, ela é a mais antiga agremiação de Belo Horizonte ainda em atividade.

A origem das escolas de samba de Belo Horizonte remete a 1937, quando foi fundada a Pedreira Unida. A agremiação reunia carnavalescos da favela Pedreira Prado Lopes e completaria 80 anos em 2017, mas já está extinta. “O Rio de Janeiro foi a vanguarda nesse processo no país, mas é interessante notar que a Pedreira Unida surgiu menos de dez anos após a criação das primeiras agremiações cariocas no final da década de 1920, como Deixa Falar, Mangueira e Portela”, conta o historiador Marcos Maia.

A novidade foi saudada pela imprensa mineira, que anunciou em manchetes a substituição dos clarins e dos instrumentos de sopro pelos instrumentos de percussão. Outras escolas também surgiriam e, em 1956, três delas se organizaram para se apresentarem guiadas por samba-enredo. Até então, o samba do desfile era improvisado pelas baterias. Segundo Marcos Maia, no início da década de 1980, as escolas de samba de Belo Horizonte haviam atingido um desenvolvimento que só perdiam para as do Rio de Janeiro em termos de luxo e quantidade de integrantes.

Blocos caricatos
Além das escolas de samba, Belo Horizonte tem outra categoria de desfile: os blocos caricatos. Nove deles desfilaram ontem (27) à noite, também na Avenida Afonso Pena. Hoje (28), mais um se apresentará, após as escolas de samba. O júri também elegerá os três melhores, que serão anunciados na sexta-feira (3) e receberão, respectivamente, prêmios de R$25 mil, R$12,5 mil e R$6,25 mil.

Peculiaridade de Belo Horizonte, a origem dos blocos caricatos ainda não é totalmente conhecida dos historiadores. Entre algumas hipóteses, eles podem ter influência dos carros alegóricos que partiam dos clubes e sociedades no início do século 20 ou do corso, que existia desde a fundação da cidade, em 1897. No corso, famílias desfilavam fantasiadas em seus carros particulares, numa época em que os veículos eram mais abertos e as pessoas conseguiam ficar de pé nas laterais.

Nos blocos caricatos, a bateria fica em cima de um caminhão e os instrumentos ficam presos no veículo. “É uma particularidade de Belo Horizonte, mas também existiam em São João del Rei. É possível que tenha nascido na capital e ido para outras cidades, mas também é possível que o caminho tenha sido inverso”, diz Marcos Maia.

Tradição
Embora a primeira escola de samba tenha surgido em 1937, as origens do carnaval em Belo Horizonte são bem mais antigas. “Há indícios de que, já no século 19, antes da fundação da cidade, as pessoas pulavam carnaval. Nesta época, aqui existia o arraial do Curral del Rey. Um livro escrito por um padre da época, chamado Francisco Martins, traz um capítulo sobre festas profanas e cita, de maneira negativa, o carnaval, onde rapazes estariam desencaminhando as moças. Ele inclusive menciona o termo batuques”, afirma o historiador.

É provável que o padre estivesse se referindo ao entrudo, modalidade de carnaval que veio com os portugueses no período colonial e que ainda se praticava no Brasil no século 19. Trata-se de uma brincadeira em que as pessoas jogavam umas nas outras farinha, baldes de água, limões-de-cheiro, areia e outros produtos.

Belo Horizonte foi fundada em dezembro de 1897 e já em 1898 há registros tanto do entrudo, como de festas com mascarados nas ruas. “Em 1899, a exemplo do Rio de Janeiro, a capital mineira já contava com o primeiro clube, criado por uma sociedade de empresários e profissionais liberais para a realização de festas. Neste ano, pouco mais de dez carros alegóricos desfilaram saindo deste clube. Também havia cavalos e clarins. Eles se intitulavam Diabos de Luneta. Nos anos seguintes novos clubes surgiriam, assim como posteriormente blocos de rua, ranchos carnavalescos e as escolas”, conta Marcos Maia.
Edição: Wellton Máximo